INSÔNIA
Quando a rotina me consome e eu preciso afrouxar o
nó da gravata para não ultrapassar os limites entre a lucidez e a loucura, o
bom mesmo é chegar em casa, tomar um banho quente, comer uma guloseima
deliciosa qualquer, dessas que fazem mal à saúde, e descansar. Porém, há
momentos em que minha cabeça está cheia demais. Cheia de problemas, reflexões e
ideias, que aparecem como vultos após o apagar da última luz da casa,
protagonizando um balé agonizante que ocupa minha mente e faz com que meu
corpo, apesar de cansado, não consiga relaxar.
Tempos antes de ir para a cama, costumo verificar
meus e-mails e assistir a alguma bobagem na tv. Destino um tempo significativo
a este ofício, mas, com o avançar da noite, o relógio tende a lembrar-me da
necessidade de dormir, como uma espécie de sábio conselheiro, que conhece a real
importância de uma boa noite de sono para o descanso de qualquer ser humano. Ainda mais se ele possui uma jornada de trabalho cansativa como a minha. Assim,
cada "bip" do relógio soa-me como um recado claro e imperativo. É
hora de dormir.
Costumo ceder às pressões do “porta-voz de Chronos”
próximo das 23h, então, programo o despertador para às 6h20 da manhã e me deito
na cama. Entretanto, em dias em que os pensamentos estão acelerados, tão logo fecho os olhos, passam a habitar na minha mente diversas imagens de fatos
que li, ouvi, vivi, de expectativas de coisas que espero que aconteçam e de
outras que nutro a esperança de que não se concretizem nunca. Tais imagens são
extremamente nítidas e são normalmente acompanhadas por uma espécie de monólogo interior, como
se eu estivesse conversando mentalmente comigo mesmo.
Em um desses dias, por exemplo, tive raiva ao
visualizar com perfeição a face carrancuda de meu chefe cobrando-nos, sem
razão, um melhor desempenho no escritório (aquele imbecil barrigudo!). Senti
insegurança ao lembrar de um mau emprego de uma vírgula, separando sujeito e
predicado, em um dos relatórios entregues semanas atrás (O que pensaram de mim?
Será que perceberam?). Fiquei feliz ao me imaginar fazendo um gol do meio de
campo na pelada do final de semana seguinte (Se batesse de longe, igual ao
Roberto Carlos, e a bola entrasse na forquilha, seria incrível!). Terminei
sentindo novamente raiva, pois o exercício futurológico sobre a pelada do final
de semana fez me lembrar do gol infantil sofrido pelo meu time na
desclassificação na Libertadores, dois dias antes (Meu Deus! O zagueiro parecia
um jogador do time infantil).
Passados alguns minutos, eu começo a sentir um de peso nos olhos, quero e preciso dormir, mas meu pensar provoca um turbilhão de emoções que gera uma inquietação e me impede de cair no sono. A ansiedade faz com que eu role de um lado para o outro da cama, sem achar a posição correta. Assim, uma atividade aparentemente corriqueira na vida de qualquer pessoa se transforma em algo angustiante.
Quando estou assim, é inevitável não realizar um pseudo exercício de filosofia, no qual reporto-me à mitologia grega: sinto-me totalmente abandonado por Hipnos e abraçado por Hades. Então, no afã
de fugir dessa agonia, recorro aos princípios de Baco: pulo da cama e vou à
varanda fumar um cigarro e tomar uma taça de vinho.
Após ingerir o resto do destilado e dar a última
tragada no cigarro, gasto alguns minutos apreciando a calmaria da noite, da
qual o único barulho é proveniente dos cães que tentam intimidar as poucas
almas vivas que passam pela rua. Depois, começo a
passear pela casa, alimento o gato, tomo um copo d´água e dou uma passada no
quintal. Ainda olho alguns minutos para o céu e vez ou outra surpreendo-me com o
brilho da lua. Ao entrar novamente em casa, vou à sala de leituras, leio
meia dúzia de parágrafos do livro que estiver mais acessível no momento e volto
para o quarto.
No meu regresso, a cama já não parece mais
desconfortável, porém, surge-me a dúvida se fechei todas as portas da casa. Eu
sempre tenho quase certeza de que sim, mas este "quase" é motivo mais que suficiente para que a insegurança
paire sobre minha cabeça e não permita que eu sossegue sem ir conferir.
Ao voltar novamente à cama, consigo ficar bem mais relaxado, as imagens que normalmente vejo quando fecho os olhos continuam lá, mas passo a vê-las mais distantes e mais apagadas. Já não me atormentam tanto. De repente, começo a sentir uma paz de espírito, uma leveza na cabeça e na alma, talvez essa sensação seja a presença de Hipnos que, depois ver todo o meu sofrimento, vem interceder por mim. Depois de sentir este alívio interior, pego no sono.
O sono é profundo, mas muito breve. Durmo pouquíssimas horas e ouço um toque digital anunciando que já são 6h20, hora de acordar. Olho para o despertador e lembro que preciso trabalhar. Nesse instante, vem à cabeça novamente as lembranças de Chronos e Hades. O primeiro mostrando quanto tempo tenho para chegar ao trabalho e o segundo fazendo-me lembrar do que me aguarda por lá.
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