VISÕES

 



O sol daquele domingo invadiu a janela e atingiu o esquelético corpo de Adamastor, que recebeu os raios solares sem camisa e sem coberta, abandonados no primeiro sinal de calor na madrugada. Protegia o rascunho de homem apenas um short colorido com estampa de desenho animado apagada pelo desgaste do tempo, mas que pela predominância de vermelho e azul parecia ser do Superman.

 Adamastor entregou-se ao calor das primeiras horas do dia como se aquela sensação fosse a melhor do mundo. Por isso, um sorriso no canto da boca formou-se tão logo ele ficou de barriga para baixo na cama, como se pedisse que o sol fizesse uma massagem em suas costas. Em poucos instantes, dormiu de novo.

 Entretanto, o novo período de sono não durou mais do que uma hora, pois o que antes era relaxante transformou-se em castigo. Uma sensação de pele queimando passou a provocar um certo desconforto. O calor do sol havia ficado certamente mais forte. Sentindo-se desconfortável, ele esticou braços e pernas ao máximo que conseguiu num gesto de preguiça e depois fincou os dois pés no chão. Era hora de se levantar.

- Bom dia, querida!

Não obteve respostas, pois Júlia, sua esposa, estava imóvel dormindo profundamente. Na cabeça do homem que recém acordado, aquela mulher parecia um anjo. 

Então, sem fazer muito barulho, ele vestiu um roupão e após escovar os dentes e lavar o rosto foi para cozinha preparar seu café da manhã. Enquanto fritava ovos, teve a ideia de surpreender sua mulher com café na cama, gesto romântico que costumava fazer nos primeiros meses de casamento, mas que foram deixados de lado com o passar do tempo.  

Quando estava colocando leite no café, bebida matinal preferida de sua esposa,  ouviu o alarme de seu relógio disparar, pois esqueceu de desprogramá-lo no momento em que decidiu abandonar os remédios que tomava há mais de dez anos. 

O fato ocorreu há três dias. Parou por não ver sentido em tomar um remédio amargo e caro, sendo que se sentia melhor quando não os tomava. Para evitar sermões, não contou a Júlia que havia parado de toma-los, ao invés disso, substituiu cada unidade por balas de menta.

Após terminar de preparar o café, Adamastor colocou tudo em uma bandeja e dirigiu-se ao quarto para fazer sua surpresa. Durante o percurso, subiu a escada com muito cuidado para não derramar nenhuma gota e empurrou a porta, que estava entreaberta, com os pés. Na cama, ele posicionou a bandeja próxima aos pés de Julia, armou seu mais belo sorriso e resolveu acordá-la:

- Acorda, dorminhoca. Hora de tomar café.

Passados alguns minutos no quarto tomando café com sua mulher, o homem deu uma última mordida em um dos pães que havia levado e resolveu descer e regar as plantas no jardim. Sua esposa continuou deitada, mas ele não fez questão de convencê-la a se levantar, tampouco questionou sua decisão, afinal, era domingo, dia de exercitar a preguiça. 

Já na parte de baixo da casa, ele colocou a mangueira em uma das torneiras próximas da sala e a esticou até as roseiras que decoravam a frente da residência e começou a banhá-las com cuidado e carinho.

Era um domingo bonito, mas que estranhamente não havia movimentação de pessoas. Estavam todos em suas casas e as ruas estavam vazias. Porém, tal ausência de gente não foi notada por Adamastor, que seguia entretido com seu programa de domingo, dedicando toda sua atenção a ele. Atenção que precisou ser fracionada quando apareceu de repente seu primo Júlio, com quem não falava há muitos meses. 

Depois de um caloroso abraço, sentaram-se os dois na calçada e começaram a conversar sobre a vida. Trocaram confissões sobre suas esposas, falaram também sobre futebol, sobre a triste situação do Corinthians no campeonato e sobre o fiasco do Brasil na Copa do Mundo. Passaram um bom tempo colocando o papo em dia.

A conversa ainda rendia quando os dois avistaram um carro de polícia parar em frente à casa. De repente, o assunto da vez foi cortado pela metade e toda a atenção foi dada aos dois policiais que saíram da viatura. 

Tratavam-se do Cabo Almeida, um moreno atlético, jovem e alto, e o Sargento Teixeira, homem de meia idade, um pouco mais baixo, não tão atlético e careca. Adentraram a cerca da frente da casa com voracidade e enquanto o Cabo Almeida apontou a arma para os homens que estavam na calçada, Sargento Teixeira entrou na casa para fazer uma averiguação. 

Após alguns minutos, o Sargento ressurgiu e deu voz de prisão a Adamastor, que ainda protestou, alegando não saber o que estava acontecendo e que os oficiais estavam cometendo um engano.

- Fala pra eles que sou um homem de bem, Júlio, fala!

Não adiantou. Júlio ficou mudo de repente e não fez outra coisa a não ser ver e ouvir sem reação os protestos de Adamastor, que foi algemado, colocado na viatura e levado à delegacia.

 Depois da polícia sumir do raio de alcance de sua visão, Júlio ainda ficou mais algum tempo parado na calçada, então deu uma coçada de leve na cabeça e foi embora, não se sabe para onde.

Hoje, muitos anos após o acontecido, o já aposentado Coronel Teixeira ainda sente um calafrio na espinha todas as vezes que conta o que realmente aconteceu. Segundo o ex-militar, era um domingo frio e chuvoso quando eles receberam uma denúncia vinda do bairro Nova Vida. 

O Coronel sempre destaca que aquela abordagem não foi a mais correta, mas foi fruto de um impulso de quem custou a acreditar nos relatos apresentados pela pessoa que fez a denúncia.

 Conta que quando ele e seu parceiro chegaram na casa havia um homem aparentemente desequilibrado com algo na mão, o que mais tarde fora comprovado que era um pedaço de víscera humana. 

Sua fisionomia não era das melhores. Seus cabelos estavam assanhados, seus olhos estavam vermelhos e suas roupas imundas, parecia que não tomava banho há semanas. Estava sentado na calçada conversando coisas ininteligíveis com um cachorro de rua. 

Ao entrar na casa, a sala estava extremamente bagunçada e cheirando muito mal. Ao aproximar-se da escada, o à época sargento foi subindo os degraus e percebendo que o mal cheiro vinha do quarto decidiu averiguar. 

Lá, havia um resto de mulher perdido no meio de um mar de sangue seco, vermes e moscas. Devia estar lá há dias. Nos seus pés, havia uma bandeja de prata com alguns ovos crus quebrados, uma mistura líquida que lembrava café e fatias de pão mofadas. O militar segurou o grito e o vômito. Surpreso com a cena, desceu as escadas correndo e prendeu o homem que estava sobre a mira da arma de seu parceiro.

Depois do choque com o que aconteceu e após os devidos procedimentos legais, o julgamento de Adamastor aconteceu alguns meses depois daquele domingo de inverno e, como já era de se esperar, ele foi condenado e mandado para um hospital psiquiátrico. Alegaram esquizofrenia.




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