A ÚNICA SOLUÇÃO

 



    Era mais um domingo de sol bonito e, como de costume, fui com minha mãe fazer a feira da semana. O caminho de casa até lá é curto, uns dez minutos, dados em passos miúdos. Cumprimos sempre o mesmo ritual: carne de boi, verduras, coentro, batata, cebola, tomate, alface e banana. E, com o dinheiro que sobra, porque fazemos questão de que sobre , compramos pastéis de queijo e de carne e um copo de suco de maracujá. Comemos um ali mesmo, em pé, e levamos dois para casa: um para meu irmão, outro para meu pai.

    Entre o “bater perna” e os “chorinhos” de minha mãe atrás dos melhores preços, encerramos nosso ofício dominical em cerca de uma hora. Naquele dia, porém, quando já nos encaminhávamos para o pasteleiro, “mãinha” encontrou uma amiga que não via há muito tempo, recém-chegada de São Paulo, segundo disse. Ao notar minha mãe, a mulher veio ao nosso encontro. Abraçaram-se com aquele entusiasmo próprio de quem retoma um laço antigo.

— Essa é tua menina, é? Mas como cresceu! Tá uma moça!

    Após a resposta orgulhosa de minha mãe, a visitante me envolveu num abraço e beijou minha bochecha. Lembro do cheiro: alfazema e leite de rosas, uma mistura doce, quase vertiginosa.

    As duas começaram a conversar. Vieram lembranças da escola, comentários sobre o verão, notícias soltas, risos, esse tipo de conversa que se apresenta quando há afeto e tempo acumulado. O relógio avançava, e nada da conversa ter fim. Já um pouco impaciente, desviei o olhar e passei a observar o movimento da avenida.

    Foi então que, um pouco adiante, percebi uma mulher acenando em minha direção. Hesitei. Não reconheci o rosto, mas, para não parecer indelicada, ergui o braço e retribuí o gesto: a mão indo e vindo como um para-brisa, o sorriso meio incerto e sem graça, pedindo confirmação. Nesse exato instante, uma voz masculina irrompeu atrás de mim:

— Opa, cumade! Cê tá boa?!

— Tô sim, cumpade! — respondeu a mulher.

O aceno não era para mim.

    Ainda trocaram algumas palavras, lançadas ao vento, dissolvidas pela distância. Não entendi o conteúdo, mas compreendi o suficiente. Fiquei imóvel. Algo subiu do peito à cabeça, um calor breve, um formigamento leve no rosto. Era como se o corpo tivesse sido flagrado em erro antes mesmo de mim.

    Por um segundo, ou vários, o tempo pareceu estar paralisado, como em um fim de novela: o barulho da feira, o vai e vem das pessoas, a própria conversa de minha mãe. Restou apenas aquele gesto deslocado, repetindo-se na memória como se pudesse ser desfeito.

Tarde demais.

    Sem saber onde pôr as mãos, inventei um gesto: estiquei os braços acima da cabeça, entrelacei os dedos e soltei um bocejo largo, teatral, como quem apenas espanta o cansaço. Minha mãe interrompeu a conversa:

— O que foi, menina?

— Tô com sono, mãinha.

       Sentei-me num banco próximo. Apoiei a mão sobre o rosto, improvisando uma aba de boné, e fiquei ali, à sombra dos próprios dedos, esperando que o tempo , ou a conversa, passasse rapidamente.

Comentários

  1. Escrita ricamente detalhada e envolvente pra quem lê, como sempre...👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

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